O cenário de consumo de tabaco entre adolescentes brasileiros passou por uma transformação significativa nos últimos cinco anos. Segundo a PeNSE 2024, a experimentação de cigarros eletrônicos subiu de 16,8% (2019) para 29,6% (2024, faixa de 13 a 17 anos). O uso recente, nos 30 dias anteriores à pesquisa, avançou de 8,6% para 26,3%, o que representa um aumento superior a 300% no período.
A PeNSE é realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação. Em 2024, a quinta edição do levantamento abrangeu mais de 12,3 milhões de jovens matriculados em escolas públicas e privadas, com respostas de alunos sobre percepção e de diretores sobre o ambiente escolar.
Perfil do consumo
- Meninas experimentam mais os vapes (31,7%) do que os meninos (27,4%).
- O uso é mais comum entre alunos da rede pública (30,4%) do que na rede privada (24,9%).
- Regionalmente, Centro-Oeste (42,0%) e Sul (38,3%) apresentam os maiores índices; Norte (21,5%) e Nordeste (22,5%) os menores.
Paralelamente, houve recuos em outros produtos de tabaco: o cigarro comum caiu de 22,6% para 18,5%, e o consumo de narguilé caiu de 26,9% para 16,4%. Segundo o IBGE, esses dados sugerem que pode estar ocorrendo uma substituição do narguilé pelo cigarro eletrônico, sobretudo entre alunos de escolas particulares.
Impactos, riscos e contexto regulatório
A OMS alerta que dispositivos de nicotina têm nove vezes mais probabilidade de serem usados por adolescentes do que por adultos. Embora a venda, importação e propaganda de cigarros eletrônicos seja proibida no Brasil pela ANVISA, esses produtos chegam aos jovens por meio de ambientes online e publicidade segmentada.
Nicotina é uma substância altamente viciante que pode prejudicar o desenvolvimento cerebral; além dela, vape traz toxinas e metais pesados que podem alcançar os pulmões com partículas minúsculas.
No campo da saúde pública, o Programa Saúde na Escola (PSE) busca prevenir o uso de tabaco; porém, em 2024 apenas 48,5% dos estudantes em escolas públicas com adesão ao PSE participaram de ações específicas para prevenir o uso de tabaco, queda em relação aos 51,4% registrados em 2019.
Outros resultados da PeNSE 2024 indicam realidades ainda mais amplas: 15% das adolescentes deixaram de ir à escola ao menos um dia no ano por falta de absorventes; mais de 1,5 milhão de estudantes faltaram às aulas por insegurança no trajeto até a escola; 9% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relatam terem sido forçados a relações sexuais.
Neste panorama, vemos um chamado à parcimônia, à atenção plena e ao cuidado com o bem-estar dos jovens. A notícia não é apenas sobre números: é sobre como nutrimos, guiamos e protegemos a curiosidade natural da juventude, promovendo escolhas que apoiem o desenvolvimento saudável, a autorregulação e uma vida com menos ruídos.
Como tem sido a experiência de você, leitor, com a presença da tecnologia e de novas formas de consumo no dia a dia de jovens próximos a você? A reflexão aqui é menos sobre juízo e mais sobre construção de ambientes seguros, informados e afetuosos, onde a curiosidade pode florescer sem abrir portas para danos duradouros.Que caminhos práticos podemos adotar hoje para transformar curiosidade em autoconhecimento e bem-estar, apoiando adolescentes a fazerem escolhas conscientes sem demonizar a tecnologia?